DILMA ROUSSEFF – UM GOVERNO “KAMIKAZE”

Romulo F. Federici

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Uma história sem o lado social:

 

Segundo a criatividade da história oficial, retratada, com retoques da imaginação do pintor Pedro Américo, no dia 7 de setembro de 1822, D. Pedro I, aporrinhado com as futricas da corte portuguesa, às margens do riacho Ipiranga, sacou de sua espada e gritou “independência ou morte”, promovendo a independência do Brasil.

Pois bem, desde aquela data o Brasil só teve um governo focado nos problemas sociais, o de Getúlio Vargas, durante o chamado “Estado Novo” – contrapondo-se à conservadora “Velha República”. Foi um período ditatorial que implantou uma legislação trabalhista tida como de inspiração fascista que, apesar disso, foi o primeiro conjunto de normas a disciplinar as relações do trabalho os direitos e obrigações trabalhistas.

Até então o sistema vigente era neo-escravagista com os trabalhadores submetidos a jornadas desumanas de trabalhos, sem nenhuma garantia e remuneração humilhante. A legislação trabalhista de Getúlio, por seu turno, com alterações ao longo dos anos, vem durando até os dias de hoje quando deverá ser atualizada a qualquer momento.

A estabilização econômica e os efeitos sociais:

 

Depois disso, o foco social só começou a ser retomado, e mesmo assim indiretamente, no governo de ITAMAR FRANCO que criou o PLANO REAL e chamou FERNANDO HENRIQUE CARDOSO para atuar como Ministro da Fazenda, um político forte e com a credibilidade que o momento requeria. A inflação começou a ceder isso trouxe, um efeito social, pois os salários começaram a se livrar, gradualmente, da corrosão da inflação.

Essa atuação valeu a FHC as condições políticas para ser eleito e reeleito Presidente da República e, ao mesmo tempo, gerou as bases necessárias aos avanços sociais em governos futuros, com maior foco social.

Apesar dos efeitos benéficos do controle da inflação havia necessidade de muito mais, com avanços mais audaciosos, profundos e de efeitos em prazos aceitáveis. Isto porque o Brasil continuava sendo uma monumental fábrica de pobres, com renda média indigente e vitimas de uma das piores distribuições de renda do mundo o que gerava, paralelamente, um processo de favelização tresloucado.

Ademais havia necessidade de medidas fortes e urgentes não só para se começar a reparar essa situação injusta mas, também, para frear as tensões sociais crescentes que corriam, em marcha batida, para uma convulsão.

Um governo com absoluta prioridade social:

 

A etapa seguinte desse processo, possível porque as etapas anteriores haviam sido vencidas, veio com a chegada de LULA ao poder, trazendo um governo com foco eminentemente social sem desmantelar a estrutura economico-financeira que havia sido montada. No entanto, afrouxando a ortodoxia gerencial, gerou um aumento de gastos públicos até o limite da responsabilidade fiscal e um aumento de inflação, procupante, mas tudo ainda em níveis bem controláveis e regressíveis.

O grande mérito dessa política foi trazer efeitos em curto prazo, aplainar o caminho para efeitos de médio e longo prazos e, mais que tudo, abrir os olhos da sociedade para os problemas sociais.

E o momento foi oportuno:

Momento oportuno, em primeiro lugar, porque encontrou um cenário favorável em nível nacional, fruto de governos anteriores.

Momento oportuno porque encontrou o cenário internacional favorável para o Brasil, apesar da crise financeira monumental que, saindo dos Estados Unidos, desmantelou a economia mundial.

Momento oportuno, porque, apesar de resistências residuais de bolsões conservadores mais  radicais,  já havia, em formação, no senso comum, a idéia de que a solução da crise social brasiliera era inadiável e sòmente viável pelas vias de uma relativa hetorodoxia, aplicada tópica e temporáriamente.

Momento oportuno porque já era visível, mesmo entre os mais conservadores, que o problema social era tão grave, explosivo e urgente que não poderia vir pelo modêlo ortodoxo de “primeiro gerar o desenvolvimento porque ele, num segundo momento, cuidaria,  automáticamente, do social”. Muito demorado.

Momento oportuno porque o Brasil era como um paciente que necessitava do atendimento urgente dos paramédicos de uma ambulância, para que, devidamente estabilizado, que pudesse chegar vivo ao hospital onde teria os cuidados definitivos.

O preço pago pela estabilização social, portanto, não foi caro.

Vencida essa etapa crucial, é hora de recalibar as políticas sociais em sintonia com políticas economico-financeiras mais convencionais, introduzindo-se entre as prioridades outros focos não convenientemente atendidos no governo LULA, como, por exemplo, a infra-estrutura do país.

Esse papel caberá à DILMA ROUSSEFF, uma gestora reconhecida, de perfil prodominantemente técnico que terá de dar uma “frenagem de arrumação”, tomando as medidas impopulares que serão necessárias, deixando, ao final de seu governo, a “casa arrumada”.

Assim sendo, a Presidenta não deverá conseguir a popularidade de LULA nem seu incrível nível de sobrevivência política. Salvo fato novo imprevisível, deverá se conformar com uma passagem curta pelo poder, consciente de que foi encarregada pelo “establishment” político atual de fazer a parte dura, antipática mas imprescindível do processo.

Em suma, tal como os pilotos japoneses “KAMIKASES”, que se explodiam contra os navios americanos na Segunda Guerra Mundial, deverá caber à DILMA ROUSSEFF um trabalho políticamente suicida, pela presevação do “imperador”.

 

BANZAI!

 

 

 

TODA DEMOCRACIA NECESSITA DE UMA OPOSIÇÃO CONSISTENTE

Estamos vivendo o “day after” de uma eleição histórica que encerra o período de governo do Presidente mais popular que se tem notícia e sua projeção como mentor e principal eleitor de sua sucessora. (Matérias completas abaixo)

Isto caracteriza o desenvolvimento de um projeto de poder, que foi tentado, sem sucesso, pelo PSDB com FHC e que aparece, mais consistente, com o PT, LULA e sua sucessora DILMA ROUSSEFF.

Todo projeto de poder deve ser encarado e analisado com muito cuidado pois, se de um lado pode representar uma continuidade em projetos estratégicos, com bons resultados, por outro lado é uma tentação à luta por um continuísmo político exagerado, o que não é nada bom.

No entanto, essa dosagem e a consequente preservação da rotatividade no poder depende, essencialmente, de uma oposição organizada, ideológicamente atualizada, moderna, com amplos canais de comunicação com todas as camadas sociais, principalmente as mais populares, grandes eleitoras, ampla militância e democracia interna que conduza as grandes decisões partidárias através de amplos debates em processos abertos com irrestrita  participação.

Tudo que o PSDB poderia ter sido e tido e deixou de ser e ter.

Hoje o partido, o mais poderoso das oposições, é uma capitania hereditária paulista comandada por meia dúzia (se tanto …) de pessoas que se recusam a dividir o poder, mesmo vendo o partido definhando.

A democracia brasileira precisa que essa realidade seja revertida, restaurando-se a importância e a credibilidade do partido, tornando-o apto a disputar todos os níveis de eleições inclusive e com chances, as eleições Presidenciais.

MARIA INÊS NASSIF, em artigo publicado no VALOR ECONOMICO, abaixo trancrito na íntegra, faz uma análise sensata e equilibrada do tema.

Aposta ela numa rearrumação do quadro partidário e uma “refundação” do PSDB, depois de sucessivas derrotas.

A propósito deve ser lembrado que a eleição de governadores tucanos, frequentemente apresentada como “grande vitória” do PSDB foi, na verdade, decorrente do capital político pessoal e local dos eleitos que, diga-se de passagem, seriam vitoriosos independentemente do partido a que estivessem vinculados.

Tal como vimos sustentando, a articulista aponta a guinada do partido para à direita como uma manobra equivocada e fatal.

Visando atender ao núcleo da classe média clássica, conservadora mas em encolhimento, o PSDB não se deu conta do potencial da classe média emergente em franco desenvolvimento, não considerou a grande ascenção das classes menos favorecidas e a invevitável tendência das mesmas em reconhecer e apoiar as políticas sociais que lhes beneficiaram. Não é gente que abrace causas direitistas.

O partido não atentou, também, para o fato de que os grandes capitalistas perderam o medo da centro esquerda, deram-se muito bem nos últimos anos, quando faturaram como nunca, e deixaram meio  de lado a banda da direita. Basta ver o volume de doações feitas a DILMA e a SERRA nas últimas eleições.

Nesse contexto, o abraço do PSDB com o DEM, um partido “demodé” e em processo de definhamento,  foi um abraço de afogados pois ambos acabaram “afundando”. Mas há tempo para uma recomposição tucana.

AÉCIO NEVES, mesmo sendo filho de uma conservadora família mineira, percebeu o perigo dessa tendência de guinar à direita e, em recente entrevista na TV CULTURA esquivou-se hábilmente desse “estigma”. Defendeu o resgate da bandeira SOCIAL DEMOCRATA defendida pelo PSDB em seus primeiros momentos. Demonstrou sabedoria política.

Como ressalta NASSIF, “nesse debate, pode se depreender também uma crítica à hegemonia paulista do partido – mas, mais do que isso, uma crítica ao grupo hegemônico do PSDB paulista até as eleições deste ano”.

Mas o pior é que desalojar esse grupo incrustrado no controle do partido vai requer, inevitávelmente, uma guerra interna, provávelmente longa e de resultados imprevisíveis, entre os três grupos principais já formados: SERRA (FHC ?) – ALIKIMIN – AÉCIO NEVES.

No entanto, um dos pontos principais do texto de MARIA INÊS NASSIF foi a terceirização da ofensiva política para a mídia tradicional que, subsitituindo o partido, desempenhou o papel oposicionista que, na realidade, era responsabilidade central do partido.

Nos últimos 20 anos, o partido tem terceirizado a ofensiva política para a mídia tradicional, que desempenhou um papel importante não só de ação oposicionista, mas até de estruturação ideológica.

A guinada do PSDB para a direita foi uma opção de suas lideranças internas que tinham nas mãos as regras do jogo, mas foi também uma estratégia de tentativa de sensibilização da opinião pública via mídia tradicional, ou seja, “terceirizada” a outro intelectual orgânico.

A mídia supriu as deficiências de organicidade do partido durante os dois governos de Fernando Henrique Cardoso e nos dois governos de Luiz Inácio Lula da Silva. É certo que essa tática terá fôlego mais curto no governo Dilma Rousseff, pelos desgastes acumulados ao longo das últimas duas décadas e pela concorrência com novas mídias, que cumpriram também um papel político nessas eleições”.

A persistência na transferência das ações partidárias para a grande mídia, aliada incondicional dos tucanos, atuando como apoio durante a era FHC e como oposição na era LULA, tende a produzir um efeito nefasto que é a perda gradual da credibilidade deixando o PSDB sem a atuação eficiente terceirizada e sem organicidade interna capaz de organizar o processo próprio de ação oposicionista.

O PSDB tem quatro anos para fazer sua revolução interna, estruturar-se como partido de oposição moderno, orgânico e estratégico, social democrata e se apresentar como opção competitiva nas próximas eleições Presidenciais.

É um prazo curto que demanda, decisões e ações rápidas visão abrangente e grandeza política.

O Brasil precisa disso.

LULA x IMPRENSA – AS CAUSAS DA BRIGA(?)

As turbulentas relações da imprensa com o Governo Lula sempre foram objeto de conjeturas entre o público mais observador e alvo de análises mais acuradas entres os “insiders”, frequentadores dos bastidores que tinhas dados mais concretos a respeito.

Mas sempre foi uma matéria considerada “sensível” e nunca abertamente abordada por nenhum dos dois lados, GOVERNO e GRANDE IMPRENSA.

Surpreendentemente, no último dia 28, a FOLHA DE SÃO PAULO publicou um artigo de FERNANDO RODRIGUES, bem informado jornalista da Sucursal de BRASÍLIA que expõe para o grande público não frequentador dos bastidores, dados até então reservados e que permitem toda sorte de deduções sobre os reais motivos que levaram a grande imprensa a fechar um círculo oposicionista ao redor do governo LULA, o que poderá ser mantido no governo DILMA, de acordo com as circunstâncias.

Ora, até os paralelepipedos sabem que as relações dos governos com a grande imprensa sempre foram estreitas e com grandes trocas de interesses, isto até o governo petista que ora se encerra. Nas agendas sobre a mesa sempre estiveram pautadas as distribuições das verbas de publicidade dos governos, sempre a “jóia” mais cobiçada do mercabo publicitário.

Fernando Rodrigues, no artigo citado, pinça com precisão os principais pontos do tema.

Quando Luiz Inácio Lula da Silva tomou posse, em janeiro de 2003, apenas 499 veículos de comunicação recebiam verbas de publicidade do governo federal. Agora o número foi para 8.094.

Esses jornais, revistas, emissoras de rádio, de TV e “outros” estão espalhados por 2.733 cidades. Em 2003, eram só 182 municípios.

Lula da Silva avançou na transparência em relação ao governo do tucano Fernando Henrique Cardoso.

Nunca existiu esse tipo de estatística até 2003. Ainda assim, há buracos negros no processo. Não se sabe quais são os veículos que recebem verba de publicidade estatal nem quanto cada um ganha”.

A diferença do petista para o tucano foi a dispersão do dinheiro entre os 8.094 jornais, revistas, emissoras de rádio, de TV e sites. Um espetáculo de 1.522% de crescimento de veículos atendidos.

O valor total gasto nos dois mandatos, até outubro deste ano, foi R$ 9,325 bilhões. Dá média anual de R$ 1,2 bilhão.

Se tomarmos por base a verba atualmente gasta, similar a de anos anteriores, e num cálculo aritimético simples chegamos, grosso modo, às seguintes conclusões.

Até o governo FHC eram eleitos 499 órgãos de imprensa, em 182 municípios, aos quais eram distribuidas uma verba anual de publicidade no valor médio de R$ 2.404.809,61 (dois milhões, quatrocentos e quatro mil oitocentos e nove reais e sessenta e hum centavos) para cada um em números atuais. Na verdade, é óbvio, uns recebiam muito mais que outros.

No governo LULA, houve uma mudança drástica: Ao invés de 499 orgãos de imprensa beneficiados, foram eleitos 8.094 órgãos de imprensa, espalhados por 2.733 municipios, cabendo a cada beneficiado o valor médio de R$ 148.257.96 (cento e quarenta e nove mil duzentos e cinquenta e sete reais e noventa e seis centavos) e não mais de dois bilhões como anteriormente.

LULA, evidentemte, não perdeu a chance e chutou a bola levantada pela FOLHA:

“Resolvemos socializar o dinheiro do governo, levando condições para que a rádio menor, do interior, pudesse receber dez centavos daquilo que as rádios nacionais recebiam antes de eu chegar no governo”, discursou ele no complexo industrial e portuário de Suape (a 60 km de Recife).


Lula disse que a reportagem de ontem da Folha sobre o assunto o “encheu de orgulho”, apesar de não saber se “queriam fazer uma crítica ou apenas constatar”.


Segundo o presidente, a sua política de distribuição das verbas descentralizou recursos que, “antigamente”, eram distribuídos “entre meia dúzia que se autointitulavam a imprensa nacional”.

Franklin Martins, Secretário da Comunicação Social do Governo Lula fez de tudo para desconcentrar o poder da grande mídia, nas mãos de poucos grupos, oferecento recursos a jornais e revistas alternativas, blogs e outros canais da internet.

Os resultados foram pífios já que o poder da imprensa continua concentrado e os grandes grupos de mídia poderosos como, aliás em práticamente todos os países do mundo.

Estarão aí as razões dessa “guerra” entre imprensa e governo?

Cada um tire suas conclusões. Nós da área institucional já tiramos as nossas há tempos. 

 

 

OS TRAVESTIS POLÍTICOS

Na política portuguesa, quando se está no Governo faz-se o contrário do que se promete na oposição. Quando se trata de pedir esclarecimentos aos camaradas políticos, está-se calado; quando são adversários, exige-se tudo. É o travestismo político.

João Lemos Esteves (www.expresso.pt)

NOSSO COMENTÁRIO: Como se vê é tudo igual em todo mundo. Portanto, nada de caírmos na armadilha do “espírito de vira latas” e acharmos que somos os piores do planeta … em tudo …

 

 

 

“A ECONOMIA TEM LIMITES E O PAÍS ESTÁ NO LIMITE”, diz Bacha

João Villaverde | Do Rio

22/12/2010

 (Leo Pinheiro/Valor – Para Edmar Bacha, formulador do Plano Real, ainda falta poupança para o Brasil crescer de forma mais consistente.

Aumentamos as importações não porque a indústria não tem capacidade instalada, mas porque a mão de obra está cara” . Temos um problema com essa emergência da classe média, que todo mundo está achando uma maravilha”

Em 1974, quando Edmar Bacha criou o termo “Belíndia” para designar o modelo econômico brasileiro – que unia a riqueza da Bélgica, um país pequeno, com a pobreza da Índia, um país continental – o Produto Interno Bruto (PIB) havia crescido 8,1%, mas a inflação dobrara, passando de 15,5% para 34,5% de 1973 a 1974. Era o fim do “milagre” produzido pela ditadura militar a partir de 1967, e início de um período que mesclaria crescimento acelerado com endividamento externo e inflação crescente. Vinte anos mais tarde, Bacha, doutor em economia por Yale (EUA) em 1968, integrava o grupo de economistas formado por Persio Arida, Gustavo Franco e André Lara Resende na formulação e implementação do Plano Real, que trouxe a inflação dos 2.477,1% registrados em 1993 para menos de dois dígitos a partir de 1996. Hoje, com a economia caminhando para repetir a alta de 8% registrada pelo PIB nos anos 1970, Bacha avalia que o Brasil está no limite.

“O Brasil está mais complexo que nos anos 1970 e 90. Superamos os grandes problemas da ditadura, da hiperinflação e da perspectiva para um governo de esquerda. Não há mais um grande problema, mas uma série de questões para serem atacadas”, avalia Bacha, para quem o país conta “com uma produtividade ainda fraca, o setor público ainda abocanha uma parcela muito grande do PIB e não entrega de volta no mesmo nível, o sistema político brasileiro é um horror, o sistema tributário é uma vergonha, e a Previdência, se não for reformada, vai quebrar o país em 2050″.

Na entrevista que deu no prédio projetado por Oscar Niemeyer, com jardins de Roberto Burle Marx ao fundo, onde funciona o Instituto de Estudos de Pesquisa Econômica Casa das Garças, Bacha, diretor do centro e até a semana que vem consultor sênior do Itaú BBA, fez um balanço dos oito anos do governo Luiz Inácio Lula da Silva, e avaliou os principais desafios de Dilma Rousseff. E foi contundente em dizer que não vê risco de desindustrialização no país, mesmo com os indicadores de produção industrial andando de lado desde abril. “Como podemos falar em desindustrialização quando estamos com pleno emprego?”, pergunta, se referindo à demanda por mão de obra, que acaba por elevar os salários. A seguir os principais trechos de sua entrevista:

Valor: Com o atual ritmo de crescimento do PIB, câmbio valorizado, inflação acima da meta do BC e financiamento externo elevado, como é possível se alterar esse modelo sem que se bata em um gargalo?

Edmar Bacha: A economia tem limites, apesar do Antônio Delfim Netto achar que não existe produto potencial. Claramente estamos trabalhando nos limites. Como sair disso sem aumentar a poupança interna? Com produtividade. O que temos a oferecer para aumentar a produtividade? Os avanços tecnológicos não caem do céu, é preciso ir atrás deles e isso vai na contramão da tese de desindustrialização, afinal estamos importando mais tecnologia, justamente para ampliar a produtividade.

Valor: O sr. então refuta a ideia de que o Brasil está se desindustrializando?

Bacha: Estamos em pleno emprego, que desindustrialização é essa? A verdade é que por estar em pleno emprego e a mão de obra em escassez, e por estarmos nos especializando em serviços, comércio e construção civil, a indústria não consegue concorrer na disputa pelo trabalhador.

Valor: Por isso os indicadores de produção industrial estão tão fracos desde abril?

Bacha: No Brasil, nunca olhamos direito para a questão do emprego, mas sempre para a utilização da capacidade produtiva. Acho que é uma novidade o que está ocorrendo. Nunca tivemos uma taxa de desemprego tão baixa. A indústria se anima porque a demanda está mais alta e tenta contratar mais mão de obra, e aí o preço sobe. O próprio Valorfez uma matéria chamando atenção para os acordos salariais recordes neste ano. Isso representa aumento do custo da mão de obra e consequentemente reduz a rentabilidade da indústria. Então a indústria não tem por quê produzir mais. Não há pressão sobre a capacidade instalada, mas sobre mão de obra. E não é só na indústria, o pessoal de construção civil também. Não tem engenheiro e também não tem pedreiro.

Valor: Essa dificuldade em produzir, então, facilita a entrada de importados?

Bacha: Ao tentar produzir mais o salário sobe, e com isso diminui a rentabilidade, então ela não produz além de certo patamar. Aumentamos as importações não porque a indústria não tem condições de concorrência, mas porque ela está plenamente empregada.

Valor: Onde isso pode chegar?

Bacha: Essa falta de mão de obra pode extravasar para aumento da inflação ou um déficit não financiável nas transações correntes. Esse é que é o problema, não é a desindustrialização.

Valor: Não estamos dependendo muito da demanda chinesa por commodities?

Bacha: A ideia de que os preços estão em alta e podem cair e gerar um problema é exagerada. Se daqui a cinco anos a China parar de consumir, a Índia assume a demanda. Vivemos uma mudança estrutural profunda, semelhante a que ocorreu na passagem do século XIX para o XX, quando o país líder era consumidor de commodities, a Inglaterra, e passou a ser os Estados Unidos, um país produtor de commodities. Passamos, então, cem anos com os preços das commodities no chão, o que deu caminho para a industrialização. Agora está saindo dos EUA e indo para China e Índia, que, como a Inglaterra antigamente, demandam commodities.

Valor: O Brasil, então, continuará sendo o país do futuro?

Bacha: Não temos um terço da humanidade, como têm China e Índia. Mas temos diversos desafios vencidos, o que é ótimo, o que deixa o caminho aberto. Superamos a ideia de que o Brasil só crescia de maneira estável com ditadura, primeiro com a industrialização induzida por Vargas e depois com os militares. Superamos essa fase, podemos ser uma economia que não vai por saltos, mas cresce e com democracia. Depois a ideia de que a única maneira de crescer era com inflação. Eu me lembro do Celso Furtado dizendo que 17% de inflação é mais ou menos igual a zero nos países desenvolvidos. Superamos isso também. A terceira questão é a esquerda no Brasil, e essa é a importância do Lula.

Valor: Como assim?

Bacha: Até dezembro de 2001, quando o PT teve o manifesto de Olinda e ignorou o fim da Guerra Fria, ninguém poderia saber como seria um governo de esquerda. Aí vem o Lula e joga com todos os velhos vícios da política brasileira. Nós passamos por esse teste.

Valor: O que falta, então?

Bacha: Faltava demanda por recursos naturais, mas até isso superamos, com o surgimento da Ásia, com forte demanda pelos produtos que os latino-americanos têm à oferecer. Nossos problemas agora não têm a dramaticidade que tinham quando as questões eram hiperinflação, ditadura, a perspectiva de um governo de esquerda e a falta de demanda por nossas commodities. Isso é passado.

Valor: O Brasil está mais complexo. Mas ainda não superou todos os problemas do passado, como a desigualdade de renda…

Bacha: Concordo. Continuamos com um problema de distribuição de renda, que é coisa que precisa sempre ser priorizada. Mas não é só isso, temos outros problemas, antigos, que não foram resolvidos. Temos uma produtividade ainda fraca, o setor público ainda abocanha uma parcela muito grande do produto e não entrega no mesmo nível, o sistema político é um horror, o sistema tributário é uma vergonha e a Previdência, se não for reformada, vai quebrar o país em 2050. Uma quantidade enorme de problemas que precisam ser atacados, mas nós temos o know-how.

Valor: Este é o momento para discutir essas questões?

Bacha: Nas épocas eleitorais claramente não é. Quando você vê o nível do debate que tivemos em 2010 dá vontade de correr. Especialmente quando o principal debate se deu em torno do aborto. Temos um problema aí com essa emergência da classe média, que todo mundo está achando uma maravilha, mas ela não necessariamente tem uma face bonita, basta ver nos EUA com o Tea Party. Acho que está fora de cogitação pensar que essa classe média pode pensar em ditadura, mas estará ela disposta a discutir a fundo esses diferentes problemas? Em alguns temas já formamos consensos, como na questão dos tributos, que foi levantada depois das eleições, quando falaram sobre o financiamento da saúde.

Valor: O sr. concorda com o retorno da CPMF?

Bacha: É claro que não concordo. Acho absurdo pensar em criar mais um imposto quando o governo está arrecadando barbaridades. É preciso arrumar os gastos, não a arrecadação.

Valor: O caso da Previdência é um exemplo?

Bacha: Exatamente. Gastamos 11% do PIB com Previdência quando o normal seria 5%. Dentro da Previdência, o equivalente a 3,5 pontos percentuais são gastos com pensões, quando o normal seria 1% do PIB. Temos esses privilégios adquiridos que têm uma força enorme e representam uma parcela muito grande dos impostos.

Valor: Mas programas como o Bolsa Família são baratos, não?

Bacha: Sim, o Bolsa Família atinge 12 milhões de famílias e custa apenas 0,4% do PIB. O Loas, que atinge quantidade enorme de idosos, custa só 0,6% do PIB. Então, quando o governo fala em financiar os programas sociais, não pode estar se referindo a esses, que são muito baratos. O que ocorre é uma usurpação dos gastos sociais, dando a todo tipo de gasto o nome de social.

Valor: Dê um exemplo, por favor.

Bacha: Na educação, o grosso dos gastos públicos vai para universidades gratuitas. Não tem a mínima razão para as universidades serem gratuitas no Brasil.

Valor: Nenhuma?

Bacha: Não, nenhuma. Desde que se tenha uma política de bolsas, não precisamos ter universidades gratuitas.

Valor: Então seria possível privatizar as universidades públicas?

Bacha: Eu não gosto dessa palavra “privatizar”, há mecanismos em que os beneficiários dos gastos públicos têm co-participação desde que tenham renda para tal, seja por bolsa, seja por empréstimos escolares. Os argumentos que estão por trás desses privilégios, tanto na Previdência quanto na educação superior, vêm da Constituição, que prevê que o ensino deve ser universal e gratuito. É gratuito, mas não pode ser universal e nem pode ser, e o dia que for o país arrebenta, porque não dá para atender todo mundo de graça. Essa é a dificuldade do PT para comandar o próximo passo.

Valor: E esse passo seria qual?

Bacha: O processo que vêm pela frente está baseado na eficiência do setor público e na equidade nos gastos, porque eles não gostam de falar em privatização.

Valor: O país deixaria então de ser a “Belíndia”?

Bacha: Se continuarmos no ritmo desses últimos dez anos, daqui a 15 anos estaremos perto dos Estados Unidos de hoje. O índice de Gini do Brasil passou de 0,65 para 0,56, mas o padrão americano é de 0,40, e o europeu é de 0,25, então ainda há muito a ser feito. Temos trilhado esse caminho, mas as coisas vão ficar mais difíceis. Os desafios que temos hoje na área social são mais caros e mais complexos. Uma coisa era resolver o problema da vacinação e da mortalidade infantil, algo razoavelmente simples, mas dar SUS para todos é muito mais complicado. Com educação, uma coisa era colocar todo mundo na escola, agora é preciso fazer as crianças aprender alguma coisa.

Valor: E o Estado consegue dar conta de tudo?

Bacha: Claro que não. Boa parte do desafio agora é encontrar formas de maior participação do setor privado nessa área social. E aí tem esse grande entrave do PT. A pior coisa do governo que termina foi ter demonizado a ideia de privatização. Nós não conseguimos resolver o problema dos aeroportos porque qualquer coisa que mexe com privatização é travado. Isso é terrível porque nessa nova fase o setor público não consegue dar conta, seja do ponto de vista administrativo, seja do lado financeiro. Talvez a Dilma nos surpreenda.

Valor: Você acha que ela vai surpreender?

Bacha: Não sei. Até agora o ministério é muito velho, não? Não vejo uma cara de estar preparado para uma nova fase, parece quatro anos do mesmo.

Valor: A inflação deve fechar o ano em torno de 6%, acima da meta de 4,5% do Banco Central. Em 2002, quando a inflação dobrou, o sr. defendeu uma meta mais branda. O que acha hoje?

Bacha: Naquela época tivemos um choque de oferta, não era a economia trabalhando a mil, como hoje. Com choque de oferta se justifica um tratamento mais brando na hora de trazer inflação para a meta. Não é que o BC não tenha de atacar a inflação, mas atacar de forma compatível com o problema. Em 2010 é outra história, é basicamente demanda. Tem um ciclo de alimentos, que ajudou por três meses a inflação e agora está incomodando.

Valor: Isso quer dizer que a maior taxa de juros do mundo vai subir ainda mais?

Bacha: Seria ótimo que o lado fiscal ajudasse, mas não acho que isso vai acontecer. Quem dera que o “neomanteguismo” me surpreenda com um ajuste fiscal forte, mas vai sobrar para o BC. O que é ruim, porque já temos a maior taxa de juros do mundo.

Valor: Mas o PIB deve crescer fortemente nos próximos anos, não? Não só pelo carry-over de 2010, mas também pela perspectiva de pré-sal, Copa do Mundo, Olimpíada etc.

Bacha: Não acho que o PIB vá crescer tudo isso que está sendo projetado pelo governo e pelo mercado.

Valor: Por quê?

Bacha: Porque não temos poupança para isso.

Valor: Mas podemos continuar ampliando nosso déficit em transações correntes para sustentar o crescimento, não?

Bacha: Podemos, claro, nessa hipótese o PIB crescerá mesmo, e imitaremos a Austrália, que cresce há muitos anos, mesmo com um endividamento externo elevado, de 5% a 7% do PIB. Mas se chegarmos nesse nível o mercado pode achar que somos mais Hungria que Austrália, e a confiança se esvai rapidamente.

Valor: Como tornar o crescimento sustentável, como incentivar poupança?

Bacha: É mais fácil ter um diagnóstico da poupança do setor público que do privado. O setor público já chegou a poupar 7% do PIB, hoje poupa 1,5%. Quando se controla o gasto corrente sobra mais para poupar e investir, não tem muito mistério nisso. A questão do setor privado é mais complexa. Pense na China. O problema deles não é como aumentar a poupança, mas diminuí-la. Sabe como?

Valor: Como?

Bacha: Dê a eles um sistema universal de saúde, educação e previdência. A poupança das famílias, das empresas e do Estado vai embora rapidinho. Precisamos pensar além da poupança, os EUA nunca pouparam muito. Precisamos pensar na inovação, essa foi a razão do sucesso dos americanos.

Valor: O que deve fazer o Estado?

Bacha: Precisa fazer coisas básicas, como ocupar o Morro do Alemão (RJ). Esse é um caso quase patético de como o Estado deve agir. É como quando acabamos com a inflação, havia todo um nundo novo à nossa frente.

Valor: Que balanço o sr. faz do governo Lula?

Bacha: Teve dois grandes méritos. O PT nasceu longe das bases comunistas e populistas, mais ligado à social-democracia, a um sindicalismo mais avançado, às bases da Igreja. O que vai ser quando chegar no poder? O discurso era péssimo, assustador. Mas chegou lá e demonstrou que é possível ter governo de esquerda no Brasil. Outra coisa é o pragmatismo do Lula. Começou a atacar a pobreza com o Fome Zero. Quando viu que o programa era ruim, foi para o Bolsa Família, que deu muito certo.

Valor: E o que o sr. avalia mal?

Bacha: Um dos erros nem foi propriamente do Lula, que foi o caso do mensalão, quando o governo resolveu fazer as reformas do começo de governo, reformas difíceis de fazer e de passar pelo Congresso e resolveram utilizar o método tradicional, mais fácil, de comprar os parlamentares. A partir daí [quando estouraram as denúncias], Lula resolveu desistir de passar reformas. Ter abandonado as reformas foi algo muito ruim. Outro problema foi a demonização da privatização. Como Lula ganhou em 2006 do Alckmin com essa plataforma, percebeu que esse ideário funciona, é eleitoralmente impotente. É uma coisa muito ruim isso, porque o Brasil não vai conseguir fazer a Copa do Mundo do jeito que os aeroportos estão. Quantas PPPs o governo fez? Não sei se a Dilma vai ter a capacidade de fazer as coisas de outra forma.

 

 

 

 

LEIAM ABAIXO OS TEXTOS COMPLETOS DOS ARTIGOS CITADOS

 

 

 

O DEBATE SOBRE A REFUNDAÇÃO DO PSDB

VALOR ECONÔMICO

Maria Inês Nassif

23/12/2010

Numa democracia, as crises políticas normalmente trazem o germe da renovação, sob pena de colocar em risco a própria democracia. A crise dos partidos oposicionistas, intensificada por mais uma eleição perdida, certamente resultará em uma rearrumação do quadro partidário ou “refundação” interna, conforme pregam setores do PSDB – até porque não existe democracia sem oposição.

Os partidários da “refundação” do PSDB, no debate que tentam travar internamente via imprensa, dão um diagnóstico preliminar das sucessivas derrotas. As críticas vão desde a guinada do PSDB à direita, num momento em que parte do eleitorado da classe média estava desesperançado do PT, mas uma massa maior ascendia à nova classe média graças ao governo petista, até a desvinculação histórica do partido com o movimento sindical e os movimentos sociais. Nesse debate, pode se depreender também uma crítica à hegemonia paulista do partido – mas, mais do que isso, uma crítica ao grupo hegemônico do PSDB paulista até as eleições deste ano.

Como o PSDB é um partido de quadros, no entanto, tende a individualizar culpas e transferir hegemonias não para grupos ideológicos internos, mas para líderes que, na opinião da maioria, possam substituir os anteriores com mais eficiência. Embora esteja claro o diagnóstico da pouca organicidade do partido, a falta de familiaridade com mecanismos internos de debate ideológico tende a valorizar mais as culpas individuais do que coletivas – embora a centralização de decisões nas mãos de determinados líderes, em especial paulistas, tenha sido efetivamente um dos problemas que levaram o partido a essa crise.

Crises políticas trazem o germe da renovação

A outra dificuldade de mudar uma estrutura inorgânica são os problemas de trânsito do debate na própria máquina partidária. O PSDB, ao que parece, tenta a “refundação” por linhas tortas, ao manter a discussão de fora para dentro. Nos últimos 20 anos, o partido tem terceirizado a ofensiva política para a mídia tradicional, que desempenhou um papel importante não só de ação oposicionista, mas até de estruturação ideológica. A guinada do PSDB para a direita foi uma opção de suas lideranças internas que tinham nas mãos as regras do jogo, mas foi também uma estratégia de tentativa de sensibilização da opinião pública via mídia tradicional, ou seja, “terceirizada” a outro intelectual orgânico. A mídia supriu as deficiências de organicidade do partido durante os dois governos de Fernando Henrique Cardoso e nos dois governos de Luiz Inácio Lula da Silva. É certo que essa tática terá fôlego mais curto no governo Dilma Rousseff, pelos desgastes acumulados ao longo das últimas duas décadas e pela concorrência com novas mídias, que cumpriram também um papel político nessas eleições.

Internalizar o debate e tirá-lo do jogo de mediação entre os dois aparelhos privados de ideologia – partido e mídia – é um dos passos obrigatórios para a refundação do PSDB. A sedimentação de uma massa orgânica tem que acontecer internamente. A mídia pode reportar esse debate, trazer elementos para ele, mas é incapaz, pela sua própria natureza, de suprir deficiências organizacionais da legenda, nem substituir as relações de um partido com os setores sociais que ele representa. Embora essas duas militâncias sejam complementares em períodos eleitorais ou nos momentos de grande ofensiva oposicionista, elas não se misturam quando a questão é a formulação de consensos internos e consolidação de unidade partidária.

A outra razão para o PSDB voltar-se para si mesmo, sem terceirizar ação política, é que o resultado da eleição exigirá muita elaboração intelectual e orgânica interna para superar as contradições que trazem os resultados eleitorais. O PSDB elegeu um grande número de governadores – pela natureza do federalismo brasileiro, pouco propensos à ação oposicionista – e uma bancada reduzida na Câmara e no Senado. A ação parlamentar da oposição, nos governos Lula, foi alimentada pela mídia, mas esteve fundada nos poderes que a bancada oposicionista tinha para criar fatos dentro do parlamento. Com número reduzido de parlamentares, a oposição tem também um espaço reduzido para produzir fatos políticos.

O PSDB tem que sair da ofensiva tática, que marca o partido desde 2003, para a formulação de estratégias de sobrevivência como partido. A ofensiva udenista pura e simples não resolverá isso. Até agora, ela tem substituído as discussões de conteúdo e suprido as indefinições ideológicas do partido. Depois da terceira derrota, a agremiação terá que resolver claramente o que é, quem representa e qual a sua proposta para o país. Apenas assim conseguirá se constituir uma alternativa de poder de fato.

28/12/2010 – 03h40

Governo Lula põe publicidade em 8.094 veículos de comunicação

FERNANDO RODRIGUES
DE BRASÍLIA

Quando Luiz Inácio Lula da Silva tomou posse, em janeiro de 2003, apenas 499 veículos de comunicação recebiam verbas de publicidade do governo federal. Agora o número foi para 8.094.

Esses jornais, revistas, emissoras de rádio, de TV e “outros” estão espalhados por 2.733 cidades. Em 2003, eram só 182 municípios.

Só neste ano eleitoral de 2010, o dinheiro para publicidade de Lula passou a ser distribuído para 1.047 novos veículos de comunicação.

A categoria “outros” inclui portais de internet, blogs, comerciais em cinemas, carros de som, barcos e publicidade estática, como outdoors ou painéis em aeroportos.

Chama a atenção o aumento do número de “outros”. Em 2003, eram apenas 11. Agora, são 2.512. A informação do governo é que a maioria é de sites e blogs.

Lula e sua equipe de comunicação não escondem a simpatia pelo novo meio digital. O presidente foi o primeiro a conceder uma entrevista exclusiva dentro do Planalto para o que a administração petista chama de “blogs progressistas”.

Lula da Silva avançou na transparência em relação ao governo do tucano Fernando Henrique Cardoso.

Nunca existiu esse tipo de estatística até 2003. Ainda assim, há buracos negros no processo. Não se sabe quais são os veículos que recebem verba de publicidade estatal nem quanto cada um ganha.

O valor total gasto nos dois mandatos, até outubro deste ano, foi R$ 9,325 bilhões. Dá média anual de R$ 1,2 bilhão.

Essa cifra não inclui três itens: custo de produção dos comerciais, publicidade legal (os balanços de empresas estatais) e patrocínio.

Produção e publicidade legal consomem cerca de R$ 200 milhões por ano. No caso de patrocínio, o gasto médio anual foi de R$ 910 milhões de 2007 a 2009.

Tudo somado, Lula gasta R$ 2,310 bilhões por ano com propaganda. Os valores são semelhantes aos do governo FHC, embora inexistam estatísticas precisas à disposição.

A diferença do petista para o tucano foi a dispersão do dinheiro entre os 8.094 jornais, revistas, emissoras de rádio, de TV e sites. Um espetáculo de 1.522% de crescimento de veículos atendidos.

FOLHA DE S.PAULO, São Paulo, quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Presidente elogia a distribuição de verba publicitária do governo

DO ENVIADO ESPECIAL A IPOJUCA (PE) – O presidente Lula defendeu ontem a política de distribuição das verbas publicitárias do seu governo, que elevou de 499 para 8.094 os órgãos de comunicação beneficiados com recursos federais.
“Resolvemos socializar o dinheiro do governo, levando condições para que a rádio menor, do interior, pudesse receber dez centavos daquilo que as rádios nacionais recebiam antes de eu chegar no governo”, discursou ele no complexo industrial e portuário de Suape (a 60 km de Recife).
Lula disse que a reportagem de ontem da Folha sobre o assunto o “encheu de orgulho”, apesar de não saber se “queriam fazer uma crítica ou apenas constatar”.
Segundo o presidente, a sua política de distribuição das verbas descentralizou recursos que, “antigamente”, eram distribuídos “entre meia dúzia que se autointitulavam a imprensa nacional”.
“E ainda dizem que nós seríamos uma ameaça à liberdade de imprensa”, afirmou.

 

 

REPERCUSSÕES NA IMPRENSA: GOVERNO LULA E PERSPECTIVAS DE GOVERNO DILMA

Folha, 22/12/10 

Governo Dilma será melhor ou igual ao de Lula para 83%

Segundo Datafolha, 73% acreditam que gestão da petista será ótima ou boa

Na avaliação de 31% dos brasileiros, a presidente eleita vai cumprir suas promessas -mesmo índice de Lula em 2002

SILVIO NAVARRO
DE SÃO PAULO

A presidente eleita, Dilma Rousseff (PT), fará um governo igual ou melhor que o do presidente Lula para 83% dos brasileiros, revela pesquisa Datafolha.
De acordo com o instituto, a expectativa de 53% dos entrevistados é que a gestão da petista seja similar à do antecessor. Outros 30% avaliam que ela se sairá melhor.
A estratificação do levantamento mostra que Dilma obtém seus melhores índices na fatia da população menos escolarizada, mais jovem e que declara renda mensal de até cinco salários mínimos.
Foram ouvidas em todo o país 11.281 pessoas, de 17 a 19 do mês passado.
A margem de erro é de dois pontos percentuais para mais ou para menos.
Para 73%, o futuro governo de Dilma será ótimo ou bom. É o segundo percentual mais alto de expectativa sobre o mandato de um presidente eleito desde a redemocratização do país.
Em dezembro de 2002, a expectativa positiva sobre Lula era de 76%.
Os números de Dilma superam os do tucano Fernando Henrique Cardoso (1995-2002) tanto no primeiro mandato (70%) como no segundo (41%). Fernando Collor (1990-92) obteve 71%. Não foi feita pesquisa em 2006.
Os picos positivos foram demonstrados no Nordeste do país, especialmente em Pernambuco (78%), no Ceará (79%) e em Minas Gerais (80%). No Sul, o índice de otimismo cai para 68%.

PROMESSAS
O instituto sondou o percentual de confiança dos eleitores sobre o cumprimento de promessas de campanha. Uma parcela de 31% disse acreditar que ela cumprirá a maioria das promessas, outros 59% esperam que cumpra parte delas, e 6% acham que não realizará nenhuma.
Os números são similares ao que o brasileiro esperava de Lula em 2002. À época, 31% acreditavam que ele fosse cumprir suas promessas.
A diferença entre a expectativa em relação a Dilma e a que se tinha sobre o Lula está nas áreas de atuação de governo. Para 18% dos entrevistados, a gestão dela se sairá melhor na saúde. Em seguida, aparecem economia (12%) e educação (12%).
Quando se trata da expectativa sobre a área em o novo governo terá o pior desempenho, destacam-se saúde (13%), combate à violência e segurança pública (13%).
Antes do primeiro mandato, 27% apostavam que a administração de Lula avançaria no combate ao desemprego, e 18%, na erradicação da fome e miséria. Para 10%, a economia declinaria.
Tanto Lula como Dilma marcam seus índices mais altos de “ruim ou péssimo” quando a expectativa é sobre o combate à corrupção (10% para ele, e 20% para ela).
A exemplo do que ocorreu em relação a Lula (43%), em 2002, agora os entrevistados acreditam que os “trabalhadores” serão os mais beneficiados pelo governo (33%).
Nos demais setores a serem beneficiados, no entanto, não há semelhanças. Em 2002, 14% citavam a agricultura, e 11%, a indústria, como áreas que seriam privilegiadas. Neste ano, aparecem políticos (13%) e bancos (10%).

 

Brasileiro está mais otimista em relação à melhora econômica

Expectativas sobre o poder de compra e o desemprego são as mais altas do governo Lula

GUILHERME CHAMMAS
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

Ao final dos oito anos de governo Lula, o brasileiro está mais otimista em relação à melhora da economia, de acordo com pesquisa feita pelo Datafolha. Expectativas em relação ao poder de compra e ao desemprego atingiram os melhores índices desde o início da gestão de Lula e superam os observados ao final do governo de FHC.
Dos brasileiros, 46% acreditam que seu poder de compra vai aumentar. Há oito anos, eram 36%.
Em relação ao desemprego, 41% acham que a taxa, que está no menor nível em oito anos, vai diminuir mais.
“O otimismo tem uma correlação com os indicadores do país, mas existe um reflexo da propaganda eleitoral, que enfatizou os pontos positivos do governo Lula”, diz Alessandro Janoni, diretor de pesquisas do Datafolha.
Outros indicadores também demonstram a confiança dos brasileiros. Um deles é a expectativa sobre a inflação, a qual a maior parte dos entrevistados (39%) acredita que se manterá estável.
Esse otimismo pode aumentar a demanda por bens e serviços no país, conforme explica o economista Bernardo Wjuniski, da Tendências Consultoria. “Há quatro condicionantes de demanda: emprego, renda, crédito e confiança do consumidor.”

PODER AQUISITIVO
O Datafolha também questionou a opinião dos entrevistados sobre sua situação econômica atual.
O poder aquisitivo dos brasileiros alcançou o melhor resultado da série histórica, iniciada em 1994. Hoje, 19% dos entrevistados disseram que ganham muito pouco, e têm dificuldades financeiras. No final do governo FHC, esse índice alcançava 45%.
“Os números explicam muito sobre o fato de Lula ter conseguido eleger sua sucessora e sobre sua popularidade”, diz Janoni.
A pesquisa foi feita entre 17 e 19 de novembro, com 11.281 brasileiros de 16 anos ou mais. A margem de erro é de dois pontos percentuais.

 

Assista vídeo com a entrevista em www.valor.com.br

 

 

Valorização do real supera 100% no governo Lula, diz Economática

Valor

22/12/2010 16:40

SÃO PAULO – A valorização da moeda brasileira durante o governo Lula supera os 100%, de acordo com cálculo da consultoria Economática. Do dia  31 de dezembro de 2002 – véspera da posse do presidente – até ontem, o real acumulava avanço de 108,16% sobre o dólar, segundo o levantamento.

A Economática comparou a taxa Ptax (média das cotações do dólar apurada pelo Banco Central e ponderada pelo volume de negócios) de 31 de dezembro de 2002 (R$ 3,533) e a de ontem (R$ 1,6974). Segundo a consultoria, foi o maior avanço entre um grupo de moedas formado pelo euro e sete divisas latino-americanas. Destas, houve desvalorização das moedas da Argentina, México e Venezuela.

De acordo com o estudo, durante o governo Lula, apenas em 2008 o real caiu perante o dólar, com recuo de 24,21%. A maior alta anual, de 34,22%, ocorreu em 2009.

(Valor)
A zona do euro precisa de mais do que a disciplina de Berlim.